“Estamos namorando.”
“Não posso esse final de semana, porque vamos viajar.”
“Humm…nesse dia estarei com a família dele.”
São nessas pequenas falas e ações que o espaço para a amizade começa a ser minado. O homem vai assumindo dominância aos poucos, até já não restar mais nada…
A gente compreende que a vida muda e junto a ela as prioridades também, mas temos aquela confiança de que sempre haverá espaço para nós na vida da amiga. Seria assim, se fosse um relacionamento saudável.
No contexto social brasileiro, o comum é as mulheres abandonarem tudo para viver em função do parceiro, da família dele, das necessidades dele e dos filhos do casal. Apesar de comum, não quer dizer que seja normal.
Esse é um processo interessante, de certo modo. O homem, lentamente, ocupa cada canto da mulher que tomou como sua. Como, você me pergunta? Simples: Domine o tempo de uma pessoa e você a terá dançando na palma da sua mão.
Se todo o tempo da mulher for ocupado com afazeres domésticos, cuidados com os filhos, visitas a familiares, obrigações conjugais…existe tempo de sobra para essa mulher questionar algo?
O apagamento acontece sutilmente, se inserindo na rotina da presa (mulher). Anos passam e a rotina torna-se a sua identidade, a palavra do parceiro vira lei e os próprios pensamentos/questionamentos…esses já não pertencem mais a ela.
Essa sim, uma construção cuidadosa e inquestionável! Um trabalho de anos para esvaziar tudo aquilo o que a faz ser: a sua liberdade de escolher o que fazer com o próprio tempo, o seu corpo, a sua confiança, a sua ambição e a sua motivação.
Tudo agora pertence ao homem. Afinal, os votos de casamento foram a chave que trancou a gaiola.
Não há mais razão para disfarçar.
A mulher, em todo o seu ser (ou não ser), pertence a ele. E é, aqui, que os raios de luz param de chegar. Com a vida tão preenchida por Ele, que tempo haverá para ela? Que tempo há de ter para cultivar as suas amizades?
Sombra.
Cuidadora.
Doméstica.
Cozinheira.
Profissional do sexo.
Suporte emocional.
Acessório de um homem.
Já não te reconheço mais.
É assim que o relacionamento abusivo acaba com a amizade entre mulheres. Ele mata a mulher que conhecíamos e a convence de que está tudo bem, afinal, ela não está sozinha.
Se vampiros existem, esses são os homens abusivos que se alimentam de tudo o que a sua parceira é. Deixam apenas uma fina casca. Por que eles deixam a casca? Porque lhes é útil. Afinal, uma escrava perfeitamente lapidada durante anos, não pode ser descartada tão facilmente.
É duro deixar-te ir, mas eu escolhi ser livre. E você? Você foi capturada pelo predador. Sem sinais de querer se libertar.
Assistir um ser amado morrer em vida, é doloroso demais.
É assim que o homem abusivo asfixia lentamente a amizade entre mulheres e toma como posse aquela casca vazia.
Nota da autora:
Este texto nasceu de uma experiência pessoal: o luto de uma amizade de anos que foi lentamente asfixiada por um relacionamento que aprisionou a minha amiga.
Escrevo não por ressentimento, mas por uma necessidade de nomear. Porque nomes têm poder!
Se você se reconheceu neste texto, como a amiga que está perdendo alguém, ou como a mulher que está sendo apagada, saiba: você não está sozinha. E há saída.
Central de Atendimento à Mulher: 180 (gratuito e sigiloso)